SAGA DE GÊMEOS E QUEM VERDADEIRAMENTE SOMOS
Os Cavaleiros do Zodíaco é um mangá criado por Masami Kurumada em meados dos anos 80, que deu origem a um anime que ficou muito popular nos anos 90. O anime, chamado de Saint Seiya no Japão (seu país de origem), consiste em acompanhar a aventura de cinco Cavaleiros de Bronze, liderados por Seiya de Pégaso, na missão de proteger a deusa Atena de qualquer mal que tente matá-la ou destruir o mundo. Eu vi o anime de maneira espaçada nos anos 90, porque passava quando eu estava tendo aula. Mas, nos dias em que eu podia, estava ligado na Rede Manchete, assistindo Seiya e seus amigos subindo as 12 casas — que, aliás, é a saga que menos curto do anime — para enfrentar os cavaleiros de ouro que tinham sido controlados pelo Mestre do Santuário de Atena, que planejava assassiná-la.
O meu texto de hoje é baseado exatamente nele, no Mestre do Santuário, que posteriormente descobrimos tratar-se do Cavaleiro de Ouro de Gêmeos, chamado Saga. Ele não é o meu cavaleiro de ouro preferido — é o Máscara da Morte de Câncer — mas há algo sobre ele que me inspira sobre nós e, principalmente, sobre a nossa relação com Cristo.
O VILÃO TORNADO HERÓI: SAGA DE GÊMEOS
Inicialmente, Saga, o cavaleiro da constelação de Gêmeos, é apresentado como alguém de virtude e admirado, sem falhas. Porém, influenciado pelo seu irmão gêmeo Kanon e pelo "lado sombrio/espírito maligno" que possuía, ele mata o Mestre do Santuário e assume o seu manto. Ele governa o Santuário com mão de ferro sob o disfarce do mestre, acreditando que somente ele, como um ser poderoso, poderia protegê-lo de ameaças iminentes de outras divindades, como Poseidon e Hades. Seu objetivo era salvar o mundo, não destruí-lo, mas achava que a benevolência de Atena era insuficiente e que só poderia fazer isso sendo um ditador.
Ele é posteriormente derrotado quando enfrenta Seiya e Ikki na Sala do Mestre. Após ser exposto à luz do Escudo de Atena, o espírito maligno que havia dentro dele é expulso. Ao ver os seus erros, em um ato de extrema penitência, Saga comete suicídio, morrendo como um homem honrado que não suportou o peso de seus pecados dentro dessa mitologia.
Na saga de Hades, ele retorna sob o manto sombrio dos Espectros, fingindo lealdade ao deus do submundo. Para os seus antigos companheiros, ele era o traidor definitivo; mas, por trás da máscara de vilão, Saga escondia a missão mais dolorosa de sua vida: alertar Atena sobre o despertar de sua própria Armadura. Agindo como um verdadeiro mártir, ele aceitou o fardo da traição e o ódio de seus amigos — chegando a "chorar lágrimas de sangue" — para agir em favor de Atena. Sua última aparição aqui é como um legítimo Cavaleiro de Ouro, junto dos demais, sacrificando sua alma no Muro das Lamentações para que os Cavaleiros de Bronze pudessem chegar aos Elíseos e derrotar Hades.
Por fim, ele aparece novamente em Soul of Gold, junto dos outros Cavaleiros de Ouro. Todos são ressuscitados aqui para cumprir o propósito de derrotar o deus Loki e libertar Asgard. Aqui, o espírito maligno não mais o atormenta e ele pode ser o que o Cavaleiro de Gêmeos é em sua forma mais pura: sábio, calmo e devastadoramente forte. Embora Aiolia seja o protagonista, Saga é tratado como o pilar estratégico e o "ás na manga" do grupo, impondo respeito até nos vilões mais arrogantes. Ele atua como um protetor para os cavaleiros mais jovens e desaparece quando Loki é derrotado, cumprindo definitivamente a sua missão como um Cavaleiro de Ouro.
O QUE DE VERDADE SOMOS
Diferentemente de Saga, nós não possuímos um espírito maligno. Mas existe algo em nós que quer controlar as nossas ações, pensamentos e atitudes: o pecado. Na verdade, antes de conhecermos a Cristo, todo ser humano, sem exceção, é controlado por ele (Rm 8.8; Ef 2.1-3). É somente em Cristo e por meio dele que nós passamos da morte para a vida (Rm 8.5) e que somos livres do controle do pecado (Rm 6.14). Porém, mesmo livres do controle do pecado, ainda somos influenciados por ele e seremos até o momento em que estivermos com o nosso Senhor.
A salvação é entendida como um processo que envolve a justificação, um ato de Deus onde somos livres da culpa do pecado; da santificação, onde somos livres do poder do pecado por meio Espírito; e da glorificação, onde seremos livres da presença do pecado e estaremos eternamente com o Senhor. Quando cremos em Cristo como o nosso Senhor, somos declarados justos por Deus, iniciando esse processo de santificação. Não temos mais a culpa — ou seja, não somos mais condenados pelo pecado (Rm 8.1) — mas o pecado está entre nós e estará até o momento em que seremos glorificados.
Durante o processo de santificação, não podemos ignorar que pecar faz parte do caminho. 1 João é claro em dizer que, se dissermos que não pecamos, somos mentirosos o que, por si só, já configura pecado. É famosa e real a frase de Lutero que diz que somos "simultaneamente justos e pecadores". Não serão poucas as vezes em que não faremos o bem que queremos e faremos o mal que não queremos (Rm 7.19). O pecado nos faz orgulhosos, presunçosos, invejosos e quer nos fazer amantes das coisas da carne (Gl 5.19-21). Ele quer nos fazer voltar aos antigos rudimentos, seguindo o curso deste mundo.
Porém, não é o nosso pecado que define quem somos. Nós fomos redimidos e lavados por sangue precioso, vertido na cruz do calvário. Por meio de Cristo, fomos reconciliados com Deus (Rm 5.10) e desfrutamos da sua justiça. O escrito de dívida foi pago (Cl 2.14) e desfrutamos de livre acesso ao Pai, por meio do Filho, pelo Espírito (Rm 5.1-2). O diabo, nosso adversário, tenta nos acusar (Ap 12.10). Ele tenta nos levar a acreditar que, por causa dos nossos pecados e erros, devemos fugir de Deus, nos afastar d'Ele, e que o amor de Deus por nós diminui. Porém, essa não deve ser a nossa atitude. Se de fato fomos alcançados por Deus (Rm 8.9), precisamos agir como aqueles que têm o Espírito. Como filhos amados, precisamos ir ao Deus que não nos trata segundo as nossas iniquidades e que tem compaixão de nós (Sl 103.10,13), o Deus que corrige o filho que ama (Hb 12.5-6).
E essa é a nossa nova identidade por meio de Cristo: somos filhos adotivos de Deus, co-herdeiros com Cristo, tanto para o sofrimento quanto para a glorificação (Rm 8.17). Não somos mais filhos da ira, mas filhos de Deus. Aquele que nos santifica, que nos prepara para Ele, não se envergonha de nos chamar de irmãos (Hb 2.11-12; Mc 3.34-35), antes se entregou em nosso lugar para que pudéssemos ser feitos filhos de Deus. Quando pecarmos, precisamos lembrar que temos um Pai que nos ama, um Deus que enviou o seu Filho unigênito para morrer em nosso lugar, não porque merecemos, mas porque nos amou (Rm 5.8). Ele sabe que somos pecadores e falhos, mas Ele é justo e fiel para perdoar os nossos pecados (1 Jo 1.9), não por causa da nossa justiça e fidelidade, mas por causa da justiça e fidelidade d'Ele e por quem Ele é (2 Tm 2.13; Rm 3.23-26).
Saga de Gêmeos, por causa do espírito maligno e pela influência do seu irmão Kanon, foi consumido pelo orgulho e pela inveja, deixando de ser o honrado Cavaleiro de Ouro e se tornando um ditador, que acredita ser um deus e que poderia fazer melhor que Atena, a deusa a quem servia. O Luz do Escudo de Atena (também chamado de Escudo da Justiça) afasta dele o espírito maligno, seus olhos são abertos, ele reconhece seus erros e paga por eles, sendo finalmente reconhecido por quem ele sempre foi feito para ser: o Cavaleiro de Ouro de Gêmeos de Atena, agindo em prol da justiça até o fim definitivo de sua vida.
O pecado e o diabo não dizem quem somos. Nós somos filhos adotivos de Deus, mais do que vencedores por meio daquele que nos amou (Rm 8.37), não porque temos poder para sermos vencedores, mas porque confiamos naquele que venceu o mundo (Jo 16.33). Que possamos levar todos os nossos pensamentos cativos a Cristo e nos aproximar cada vez mais d'Ele, entendendo quem verdadeiramente somos por causa d'Ele. Não precisamos de atos de penitência, mas de nos achegarmos a Ele com o coração contrito para recebermos d'Ele graça e misericórdia (Hb 4.15-16), porque Ele já pagou por nós tudo o que precisava ser pago.
Um abraço,
Dodô Ramos
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