Quem me conhece, ao menos de maneira um pouco mais íntima, sabe que eu não sou muito fã de heróis. Eu também não gosto muito de personagens da ficção que se apresentam como perfeitos, sem falhas. Também não gosto muito de personagens que passam pela jornada do herói (clique aqui para saber do que se trata), ainda que eu reconheça a importância desta jornada, não somente para a ficção, mas para as nossas vidas de maneira geral. Aliás, principalmente no nosso tempo, este tipo de pensamento tem sido comum. Preferimos assistir séries, filmes ou ler obras que, de alguma maneira, retratem mais a nossa realidade; obras que tratam de temas como violência, sexo, crime, desamor a obras que falem sobre amizade, fé, amor, companheirismo, sacrifício, ainda que apreciemos também estas obras. No nosso âmago, nós desejamos o que é bom e verdadeiro, porém nos damos por satisfeitos com as distorções da verdade.
Talvez isto explique o gosto que temos por heróis nada convencionais, os chamado anti-heróis. Na imagem que escolhi, vemos três anti-heróis: Hiei, da obra Yu Yu Hakusho; Ikki, da obra Cavaleiros do Zodíaco; e Vegeta, da obra Dragon Ball. Os três são anti-heróis. E, antes de serem "heróis", eles eram vilões. Na verdade, há alguns outros pontos comuns entre eles, o que costuma, inclusive, ser um clichê dos anti-heróis nos animes:
- São vilões e enfrentam os heróis da trama, perdendo e sendo poupados (Seiya x Ikki; Yusuke x Hiei; Goku x Vegeta);
- São redimidos em parte pelos heróis e fazem parte do grupo principal de heróis como os caras com "cara de poucos amigos";
- Suas características de vilania vão sendo tratadas durante o anime, onde vão se simpatizando cada vez mais com o herói, embora evitem demonstrar isto;
- Tem alguma atitude sacrificial ou de caráter expiatório;
- Terminam a série sendo reconhecidos como heróis;
Pelo menos estes três personagens tem algumas destas características em comum.
(Alguns anti-heróis, como Seto Kaiba, de Yu-Gi-Oh, Light Yagami de Death Note e Katsuki Bakugo, de My Hero Academia)
Mesmo protagonistas podem ser anti-heróis, como o caso de Light Yagami, de Death Note, ou Lelouch Lamperouge, de Code Geass ou rivalizar em pé igual com os heróis, como Seto Kaiba ou Bakugo, mas não trataremos do caso destes. O ponto central é que os anti-heróis chamam nossa atenção. Não somente os anti-heróis, mas qualquer tipo de obra onde a nossa natureza pecaminosa é exposta da maneira mais natural possível, com mortes, violência e toda sorte de pecados provenientes da queda. Alguns, não conseguem sequer assistir, ler. Outros, tem um interesse e preferência por isso. Alguns, anseiam por ver, inclusive, vilões se tornando heróis. Outros, que, diante de toda a maldade cometida, eles paguem arduamente pelos seus erros, sem chance de redenção. Mas, diante de tudo isto, por que tudo isto — de maneira positiva ou negativa — ainda chamam a nossa atenção?
A NOSSA NATUREZA PECAMINOSA
Deus não é o autor do mal e a ninguém tenta (Tg 1.13). O ser humano foi criado sem pecado, porém, pelo seu livre-arbítrio, optou por desobedecer a Deus, trazendo o pecado entrou no mundo e a corrupção, tanto a si, quando ao mundo criado. O ser humano passa, então, a ser escravo do pecado. Por si só, não tem mais livre-arbítrio para voltar-se para Deus, ainda que o tente fazer de várias maneiras, porém sem sucesso. Somente Cristo pode libertar verdadeiramente o homem (Jo 8.36). Se Cristo não for ao encontro do homem, este permanecerá perdido, como escravo do pecado, vivendo para o seu próprio pecado, pelo seu próprio desejo. Essa é a sua natureza, devido à queda do homem no Éden. Gálatas 5, de 19 a 21, traz de maneira clara alguns dos desejos dessa natureza: imoralidade sexual, adorar a qualquer coisa com exceção do Criador, uso de substâncias para sair de sua própria consciência, hostilidade, discórdias, ciúmes, ambição egoísta, raiva, dissensões, bebedeiras, orgias, invejas e coisas semelhantes. Gálatas 5, versículo 16, dirá ainda que a nossa natureza humana anseia por essas coisas, que ela gosta disso e quer isso. Por isso, é fácil entender porque programas como BBB fazem tanto sucesso. Há um banquete reunido de tudo aquilo que a natureza humana gosta. Da luxúria a bebedeira; dos ciúmes as invejas; da raiva a hostilidade. A natureza humana tem tudo o que tem, mas não se satisfaz, onde abismo vai gerando outro abismo (Sl 42.7), abrindo cada vez mais um apetite voraz e insaciável, que só pode ser plenamente satisfeito com Cristo.
A IMAGO DEI
Como eu já mencionei no texto sobre A Cura do Dr. Octopus — caso não tenha lido, clique
aqui —, comumente, costumamos achar que somos os heróis. Porém, na verdade,
nós somos os vilões. Fomos nós que corrompemos o mundo, nós que começamos a inimizade; nós que praticamos os atos terríveis, nós que precisamos de redenção. Mesmo que tenhamos a Imago Dei, a imagem de Deus, que nos permite nos relacionarmos e expressarmos os atributos comunicáveis de Deus, estes atributos foram corrompidos pelo pecado. O nosso amor, a nossa amizade, a nossa fidelidade, a nossa bondade e a nossa justiça, ainda que se possam encontrar centelhas do caráter de Deus, foram completamente contaminado pela influência do pecado; o nosso amor é carregado de hipocrisia, a nossa fidelidade é conforme os nossos próprios padrões e a nossa justiça é imparcial.
O homem perde o referencial de Deus e cria seus próprios referências, com base na Imago Dei presente nele. O que deveria ser usado para louvar a Deus é usado para louvar a si próprio. Olhando por esta perspectiva, poderíamos imaginar, então, que teríamos um gosto muito maior pelos vilões do que pelos heróis, ou que todas as nossas obras seriam sobre vilões triunfantes sobre quem quer que faça o bem. Porém, não é isto acontece. E o principal fator é exatamente a Imago Dei presente em nós.
As centelhas do caráter de Deus, presentes em todos os seres humanos, os levam a estar numa constante busca de redenção, em busca de fazer o que é certo, ainda que façam e buscam o errado devido ao pecado. Por isso, em grande parte das histórias que escrevemos, lemos, ouvimos, existe a figura do bem triunfante sobre o mal — e ainda bem! — porque o ser humano anseia em ver o bem triunfando sobre o mal.
O protagonista é quem costuma ser o executor dessa vitória do bem sobre o mal. Há uma piada recorrente no universo dos animes de que o maior poder que um personagem pode ter é o "poder do protagonismo." Ele pode estar na pior situação possível, enfrentando um oponente extremamente poderoso, praticamente invencível e, ainda assim, ele sairá vitorioso. Jesus é o protagonista da história da humanidade e nada, nem ninguém pode ou pôde derrotá-lo. A Bíblia fala sobre Ele, do início ao fim. Ele é o verdeiro protagonista, que derrotou o pecado, a morte, dando oportunidade a pecadoress, que creem em seu nome, de se tornarem filhos de Deus, co-herdeiros com Cristo, das bençãos espirituais (Rm 8.17). O verdadeiro herói, o protagonista da história, se fez vilão, para que vilões, como eu e você, pudessem ser redimidos.
Quando cremos em Cristo, nós saímos do estado de vilões e passamos ao estado de vilões redimidos, nos tornando um tipo de anti-herói. Romanos 7:19 diz que o bem que queremos fazer, nós não conseguimos fazer e o mal que não queremos, este nós fazemos. Isto mostra que, mesmo como cristãos, somos afetados pelo pecado. Ainda que redimidos, somos afetados pela nossa carne, constantemente. É através do poder do Espírito Santo, que conseguimos vencer a luta contra a carne. E esta luta é uma luta diária. É preciso travar essa batalha todos os dias. Mas, é o por meio de Cristo, que somos mais do que vencedores, porque confiamos na vitória dele. O protagonista já derrotou o maior dos vilões. É com base nos méritos dele que somos salvos. Ainda que tenhamos a nossa parte, a história é dele e estamos ali para fazer que Ele brilhe e seja a principal estrela — e Ele será, independente do que façamos ou não —, mas é muito melhor para nós quando participamos ativamente da vitória do verdadeiro herói.
Como anti-heróis, jamais podemos esquecer que somos, naturalmente, vilões redimidos. Precisamos reconhecer que é somente pelo poder do protagonismo do verdadeiro herói, que temos uma vida diferente da completa vilania e do caos. Por mais que os nossos olhos naturalmente brilhem quando vemos situações ficcionais análogas à queda — e que revelam a podridão da nossa natureza pecaminosa — nunca podemos perder de vista o belo, o bom, o justo, o louvável (Fp 4.8). A ficção anti-heroica mostra que somos maus — algo que nunca podemos esquecer — mas, em contraste, admirar os heróis — o que muitas vezes é difícil — é admirar o que sempre devemos lembrar.
Que reconheçamos que somos maus, tentando ser bons, pelo único meio possível: por meio daquele que é verdadeiro bom.
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