GOLLUM, JUDAS E O TRAIDOR NECESSÁRIO

 

Não sou o maior fã dos Senhor dos Anéis, confesso. Amigos meus leram os livros, se empolgam com personagem A, B ou C, fazem suas mais diversas análises, curtem tudo - ou quase tudo - relacionado a obra. Eu até tenho alguns livros - 10, pra ser mais exato - mas ainda não parei para lê-los. Pretendo terminar de ler O Hobbit em algum momento de 2024 - posteriormente atualizado aqui se li ou não. Mas vi todos os filmes, tanto a trilogia do Senhor dos Anéis, quanto a trilogia do Hobbit. Acredito que com isso eu tenho, pelo menos, um pequeno "lugar de fala" - ainda que eu tenha certeza que os fãs mais ortodoxos me rechaçarão por não ter lido os livros e ter visto somente os filmes, filmes estes que, de fato, fizeram o Senhor dos Anéis merecer ganhar os Oscars que ganhou. A qualidade daquilo que o Tolkien produziu é algo que perpetuará por gerações - e Peter Jakcson soube explorar isto muito bem nas telas. Muitas análises podem ser feitas de vários personagens e muita coisa boa ser extraída. Tolkien, inclusive, gostava de tratar de temas como amizade, amor, redenção - provenientes de sua relação com o Cristianismo. Eu queria me ater ao Smeagol, chmado Gollum.


O HOBBIT CORROMPIDO E O CONFLITO INTERNO


Gollum é Smeagol, que, outrora fora um hobbit, como qualquer um outro. Ele estava pescando com seu primo, quando encontra o Um Anel. O Um Anel é um anel forjado por Sauron, Senhor das Trevas, em Mordor, e tinha o propósito de governar sobre todos os outros anéis (anéis dados aos homens, anãos e elfos). O Um Anel tinha em sia a maldade de Sauron e o poder de corromper e dominar a mente daquele que portava o anel. E foi isto que aconteceu com Smeagol. Primeiramente, ele mata o seu primo, para possuir o anel só pra si. Em seguida, o anel corrompe a sua mente, o seu corpo, tornando ele - involuntariamente - um servo de Sauron, enquanto o próprio Sauron estava em busca do Um Anel (a destruição do Um Anel, implicaria na destruição do próprio Sauron). A partir daí, Smeagol, dada a influencia do Um Anel, passa a se ser chamado de Gollum - pois era o barulho que fazia em sua garganta ao engolir - quando Gollum representava toda a sua decadência física e moral proporcionada pelo o Um Anel, passando a viver nas montanhas sombrias, recluso, totalmente influenciado pela dependência obsessiva do Um Anel. Apesar de corrompido pelo anel, Smeagol, o que podemos dizer de a parte "humana" - ou melhor, hobbit - de Gollum, lutava pelo controle da mente corrompida pelo anel. Era comum vermos o personagem apresentando sinais claros de uma possível redenção, enquanto lutava contra a corrupção do anel e a personalidade obstinada e trapaceira de Gollum, cujo único objetivo era manter o Um Anel consigo, a quem chama de "meu precioso". Gollum encontra, primeiramente, Bilbo Bolseiro, um hobbit, fazendo um jogo de adivinhações com ele onde, se o Gollum vencesse, ele iria comer o Bilbo. O Bilbo consegue escapar usando o Um Anel. Gollum entra em desespero, ficando ainda mais obcecado pelo anel. Posteriormente, ele é encontrado e capturado por Frodo e Sam, se tornando um guia e, ao mesmo tempo, uma ameaça para eles no caminho até Mordor para destruir o Um Anel, que foi dado pelo Bilbo a Frodo, muito tempo depois do primeiro encontro entre Bilbo e Gollum. O conflito de Smeagol com Gollum vai se tornando cada vez mais claro e presente. No final, já diante de Um Anel que faz de tudo para não ser destruído, Gollum trai Frodo e Sam e, assim Smeagol arranca o anel do dedo de Frodo, faendo com Gollum acabe caindo na lava da Montanha da Perdição, junto com Smeagol, destruindo a si mesmo, ao Um Anel e a Sauron. A atitude gananciosa de Gollum, motivada pela corrupção trazida pelo Um Anel, fez com que ele perdesse a sua vida, assim, salvando toda a terra-média.


O PAPEL DO TRAIDOR 


Ao pensar sobre o Gollum, me veio a figura de Judas, o Iscariotes. Ele era um dos Doze, grupo de discípulos de Jesus que são designados apóstolos (Mc 3). Judas era um judeu, como todos os outros escolhidos por Jesus. Jo 13.2 diz que, muito antes de trair Jesus, "o Diabo já havia induzido Simão a trair Jesus". Em João 13, versículo 27 diz que "Tão logo Judas comeu o pão, Satanás entrou nele". Judas era alguém que recebeu autoridade para expulsar demônios, para curar, realizar milagres. Ele ouviu todos os ensinamentos de Jesus, como todos os outros ouviram. Ouviu Pedro dizer "para onde nós iremos se tu tens as palavras de vida eterna?". Esteve no barco quando Jesus acalmou a tempestade. Ele esteve, a todo momento, diante da fonte de todo o bem, vendo o próprio Deus a sua frente. Mesmo com tudo isto, Judas traiu Jesus. 


Gandalf, na Sociedade do Anel, após Frodo dizer "Pena que Bilbo não o matou quando teve a oportunidade", diz:


"Pena? Foi a pena que segurou a mão de Bilbo. Muitos que vivem merecem morrer. Muitos que morrem merecem viver. Você pode lhes dar vida, Frodo? Então, não seja tão ávido para julgar e condenar à morte. Mesmo os muito sábios não conseguem enxergar tudo. Meu coração diz que Gollum ainda tem um papel a desempenhar, para o bem ou para o mal, antes disso acabar. A pena (piedade) de Bilbo pode decidir o destino de muitos."


Muita coisa pode ser extraída desta sentença. Mas eu quero me a ter ao papel a desempenhar. A exemplo de Gollum, Judas teve um papel a cumprir. Um propósito que, inicialmente, nem todos poderiam ver. Jesus sabia o que Judas iria fazer, porém, os discípulos não, como João 13 aponta. Além disso, em João 12, João vai dizer que Judas era ladrão. Pedro diz, em Atos 1, que Judas foi contado como um deles e teve participação no ministério, porém disse também que a atitude de Judas já estava predito nos salmos. Então, de fato, havia um destino a ser cumprido por Judas. Ele foi induzido pelo Diabo, cedendo ao mal, sendo de vez possuído por ele e tomando a atitude drástica que levou a morte de Jesus. 


O DESTINO E AÇÃO DO TRAIDOR


A natureza pecaminosa e corrompida do homem o levar a tomar as mais variadas más atitudes contra Deus e ao próximo (Rm 1). O ser humano é totalmente depravado e isto quer dizer que, por si só, é totalmente incapaz de buscar e querer a Deus. Qualquer ato de bondade, amor, justiça, liberdade, verdade humana foram corrompidas pelo pecado. Não é que o homem nasce bom e a sociedade o torna mau. Não é que o homem é mau, a não ser que precise ser bom. É que, sem Deus, o homem está espiritualmente morto, o seu pecado homem faz separação entre ele e Deus e a vontade dele é totalmente . O homem, só pode se achegar a Deus, se Deus se revelar a Ele e o meio designado por Deus para isto é a sua palavra. No nosso caminho, inclusive, encontraremos com traidores. Pessoas más, intransigentes, que mesmo ouvindo a palavra, não se arrependerão, tendo seus corações duros. Mais do que isso. Pessoas andarão ao nosso lado e, quando menos esperarmos, mostrarão que não eram dos nossos (1 Jo 2). Mas é preciso que isso aconteça, afinal, o joio irá crescer com o trigo, joio esse colocado pelo inimigo (Mt 13). Porém, primeiramente, quero destacar - e é importante que isto fique claro - que não estou me referindo a um ímpio que é traído por um outro ímpio, e nesta traição, conclama alguma espécie de justiça da parte de Deus. Me refiro a traição de um falso crente a uma verdadeiro crente. Em segundo lugar, a traição não é conosco, em princípio. É com o Senhor. E isto acontece porque eles estão no constante estado de inimigos de Deus, como todo aquele que não crê em Cristo - crer implica em obedecer. Eles estarão ao nosso lado, muitas vezes, até o final. E alguns só saberemos, no final dos tempos, que nunca estiveram do nosso lado de verdade — e, principalmente, do lado da Verdade.


Judas e Gollum não eram pessoas de confiança, mas eram pessoas que precisam estar nos lugares e ocasiões nas quais estavam. Estavam junto do grupo certos, mas não eram do grupo. Seus motivos e suas intenções sempre foram erradas e, tudo isto, influenciado pelo que era errado. Aqueles que sabiam da corrupção que o Um Anel causava sequer tentavam brincar com ele (vide Gandalf e Galadriel). Jesus, na oração do Pai Nosso, pede a Deus que livrasse os seus da tentação. Mas, Smeagol, não oferece qualquer resistência ao poder do Um Anel. Se deixa ser totalmente influenciado pelo poder do anel, que possuia mais influência em quem tem desejo de ganância e cobiça, e menos influência em quem é resiliente e possui força de vontade. A exemplo de Gollum, Judas era movido por ganância e cobiça (Jo 12). Era somente no capítulo seguinte (Jo 13) que João vai falar claramente de Satanás induzir Judas e de possui-lo de vez, porém todas as suas ações já eram motivados por uma natureza corrompida e cada vez mais inclinada para o mal.


As atitudes cometidas por Gollum e Judas foram atitudes ruins e atitudes que custaram suas vidas. Gollum arranca o anel da mão do Frodo e, no ato, cai acidentalmente no fogo da Montanha da Perdição, morrendo no processo. Judas trai Jesus e a sua atitude leva Jesus a ser morto crucificado, com Judas se matando logo em seguida, por remorso. Porém, a atitude de ambos trouxe uma reviravolta. Através da atitude de Gollum, motivada por sua ganância, o Anel foi destruído, Sauron derrotado e houve paz na terra média. Através da atitude de Judas, Jesus morreu cruficiado, ressuscitou, levou os pecados dos seus, pagou o escrito de dívida, justificou aquele que crê nele, a morte e o inferno não puderam vencê-lo,o Diabo foi derrotado e o homem pôde ter paz com Deus de maneira definitiva e direta. Por meio de ações e sentimentos ruins deles, foi possível obter um bem muito maior, um bem que foi maior que todo o mal já causado. Contudo, aqueles que cometeram as más ações, pagaram pelo preço de suas más ações. E, ambos, Gollum e Judas, pagaram com a vida, sendo totalmente — e os únicos — responsáveis por suas ações, apesar de todas as circunstâncias. A culpa não estava no Um Anel ou na tentação (indução) ao erro. Estava e sempre esteve neles.


É comum olharmos para situações adversas, pessoas complicadas, frustrações e perdas e acharmos que aquilo é o fim. Porém, como cristãos, precisamos ter sabedoria - e principalmente, fé - para entender que o, que nos cabe, é fazer o que é certo (fé implica em obediência a Deus), independente das consequências das nossas ações, acreditando que o certo é o que deve ser feito, em todo momento. Isto não fará com que acertemos o tempo e, mesmo as nossas piores ações - e consequências -, que nos desagradam e nos fazem chorar diante de Deus, podem ter resultados positivos que não esperamos. Isto não torna nossas ações erradas em certas. Apenas mostram a graça de Deus que torna o nosso erro em acerto, por pura graça. E graça também ao agir com amor em perdoar pecadores tão maus. Pedro, que poderia ter tido o mesmo destino de Judas, demonstrou arrependimento após ter negado (traído) Jesus. Isto irá trazer, em pouco tempo, redenção para Pedro. Judas não foi redimido. Suas as más ações o levaram a agir de maneira ainda pior, contudo, enquanto esteve com os apóstolos, aquilo que fez, mesmo com intenções erradas, foi usado para abençoar outras pessoas. E isto não aconteceu porque Judas é bom, mas pela misericórdia de Deus, que é soberano e traça o destino que lhe apraz, de acordo com a sua vontade.


Foi preciso que houvesse um Gollum e um Judas. Foi preciso que houvesse um hobbit, que se deixasse corromper tanto pelo Um Anel que, ao final, a sua corrupção trouxesse paz a Terra-Média; foi preciso que houvesse um traidor e que, assim, a escritura fosse cumprida. Sem eles, não haveria paz na Terra-média e não haveria a paz definitiva, com o livre acesso ao Pai. Por que foi preciso haver um traidor? São coisas que vão além da nossa compreensão. Por mais que não entendamos, é preciso que haja pessoas ruins, com atitudes ruins, com sentimentos ruins, inclusive ao nosso lado que, aparentemente, tenha aparência de piedade. Pessoas que dirão que creem no mesmo Jesus que nós cremos, que demonstrarão frutos mas que, ao final, dirão "Senhor, Senhor" e ouvirão desde "Não vos conheço". Pessoas serão salvas pelas ações destas pessoas, mas elas não, a exemplo de Judas. Talvez você que esteja lendo seja um deles. Se arrependa e creia em Jesus. No final, tudo isto redundadará na glória de Deus, seja através da misericórdia demonstrada em pecadores redimidos, ou através do juízo e da ira a pecadores obstinados. E isto deve nos trazer conforto, pois Deus irá demonstrar sua justiça. Podemos descansar na sua filidade e na sua soberania, porque Deus fez algo grandioso para a nossa redenção.





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