BATMAN, SUPERMAN E A JUSTIÇA INCAPAZ DE JUSTIFICAR


 

Recentemente li os três volumes de uma história do Superman, de Frank Miller e John Romita Jr., chamada Superman Ano Um, lançada pelo selo DC Black Label (sucessor da antiga Vertigo), voltado para o público adulto. A história se concentra em apresentar uma origem do Superman, desde o seu nascimento, seu crescimento no Kansas, sua entrada nos fuzileiros, seu "nascimento" como Superman, sua ida para Metropolis e o primeiro encontro com Lois Lane, Jimmy Olsen, Batman, Mulher-Maravilha, Lex Luthor, dentre outros personagens. Uma coisa que gostei bastante nesse história - e que também é possível encontrar em outras histórias do Superman, porém nesta com mais destaque - é o fato de que o Superman, apesar de ser um "garoto do campo", não é tipo como um bobalhão, ignorante as coisas e pessoas, tendo uma postura "inocente". Ele é, desde novo, ciente de si mesmo, ciente dos outros ao seu redor, ciente das suas capacidades, ciente dos limites aos quais precisa estar sujeito e todas as suas ações são tomadas com base nesta ciência. 

Antes de entrar no tema principal, gostaria de destacar, principalmente, a relação do Superman, ou do Clark Kent, seu alter-ego, com Deus. No primeiro volume, Clark destaca como positiva a leitura da Bíblia que sua mãe fazia toda a noite. Disciplina, respeito a autoridade, defesa dos oprimidos e compaixão são aptidões morais presentes na vida do jovem Clark, mesmo antes de se tornar Superman. No volume três, já como Superman, um soldado menciona o nome de Deus em vão, numa perspectiva de senso comum e o Superman pede respeito com o que é sagrado. Mesmo sendo um alienígena e, ao mesmo tempo, o homem mais poderoso do planeta - e cometendo atos na história que são comportamentos anti-cristãos, como sexo antes do casamento - ele ainda nutre alum respeito pelo sagrado, mostrando que os ensinamentos de sua mãe ainda faziam ter algum temor, mesmo que ele não seguisse o Caminho.


A MORAL DO HERÓI


Dentre algumas linhas tênues que distinguem o herói do anti-herói, temos o assassinato. O anti-herói não tem o menor pudor em assassinar, quem precise, a fim de fazer o que é preciso. Em alguns casos, ele até se diverte. A DC, casa de heróis como Superman e Batman, mantém essa linha bem definida para alguns de seus heróis. É o caso do Superman. Ele não mata os seus inimigos. Ele se distingue do Batman numa abordagem mais amena - o Batman é conhecido, popularmente, por deixar seus inimigos em estado de quase morte. Assim como o Batman, ele incapacita os bandidos, deixando-os a cargo da justiça da comum. É comum vermos o Superman assassinando alguém intencionalmente em outras realidades alternativas - como Injustice -, mas não na terra principal da DC. O mesmo acontece com o Batman. Seus vilões são frequentemente levados para o asilo Arkham, arrumam um jeito de sair de lá e voltam a tocar o terror, por vezes causando problemas ainda maiores para o Batman.

Nestes volumes que li do Superman, ele enfrenta diversos bandidos, entregando todos a polícia, confiando o destino dos malfeitores a justiça. Isso é correto, pois, tanto o Superman, quanto o Batman, não se consideram acima da lei e, se o fizessem, a linha que divide o herói do vilão teria sido rompida - mais uma vez, trago o exemplo do Injustice ou mesmo dos Lordes da Justiça, equipe de vilões do desenho animado da Liga da Justiça, que consistia em versões alternativas dos heróis, num universo em que o Luthor se torna o presidente, inicia um guerra entre seres super poderosos e torna o mundo um caos. Superman, enfurecido, o mata e, após perder a capacidade de acreditar que a humanidade poderia a coisa certa, ele instaura uma tirania global, governando o mundo com mão de ferro, suprimindo direitos e fazendo lobotomia em criminosos e vilões a fim de manter a justiça.


Os heróis confiam na justiça e agem como agente dela, sem ultrapassar os próprios limites estabelecidos por ela - ainda que em muitos casos façam isto e sejam perseguidos, pela própria justiça, por isto. Porém, o ser humano é falho. A justiça é falha. O Batman, por vezes, precisa lidar com policiais corruptos. O criminoso, ao escapar da cadeia ou memo após cumprir sua pena, volta ainda pior da maneira que entrou na prisão, cabendo aos heróis, mais uma vez, detê-lo e o entregar as autoridades,  numa eterno ciclo sem fim, onde a ideia de justiça, muitas vezes, parece um conto de fadas preparado para ensinar crianças que elas não devem fazer bagunças, caso contrário, o velho do saco viria para sequestrá-las - o velho não vem e elas se tornam ainda mais bagunceiras.


O PROBLEMA DA JUSTIÇA


N. T. Wright, pastor anglicano, no livro Indicadores Fragmentados, publicado pela Thomas Nelson Brasil, aponta a justiça como um indicador fragmentado, ou seja, algo que nos permite compreender o mundo, mas que é somente um indicador para algo maior, que nos permite compreende a visão do todo. Sobre a justiça, ele diz que "a justiça serve como um indicador que aponta para o que é fundamental ou essencial para nossas vidas. Ao mesmo tempo, descobrimos que tal indicador está fragamentado na medida que que nos esforçamos para viver de acordo com o ideal e fracassamos, geralmente de modos que criam mais injustiça."


Todos os seres humanos buscam por justiça ou por verem a justiça sendo executada. Todos anseiam por ver a justiça sendo praticada no final. O bandido preso, o refém resgatado, o vilão derrotado, a criança salva pelo bombeiro. A figura do bem e do mal, encontradas na noção da justiça, paira em nossa mente a todo momento, nos dando sentido e satisfação. Ninguém gostaria de ver o bombeiro resgatando um assassino ou de um médico lutando para salvar a vida de um policial corrupto. Se soubessemos que um  adolescente foi salvo de um sequestro, ficaríamos aliviados. Mas ao sabermos que este adolescente era um pedófilo, a nossa reação seria completamente oposta ao alívio.

De certa forma, ao olharmos para as atitudes de heróis como Batman ou Superman, vemos que a justiça, como disse Wright, é algo fundamental e essencial para as vidas deles, como também para as nossas. É algo que dá sentido a própria existência. Eles usam do seu tempo, recursos e esforços para promoverem a justiça porém, quanto mais bandidos predem, mais surgem. Quanto mais esforços dedicam para fazer o que é certo, mais precisam fazer o que é certo. E eles, que possuem um poder ou habilidades infinitamente maiores que os nossos, não usam de sua própria justiça perante os mais nefastos transgressores, deixando esta decisão a cargo das autoridades legais. Seria injustiça se eles aplicassem a justiça que, naquele momento, seria a mais apropriada para acabar com o mal de uma vez por todas.

A VERDADEIRA JUSTIÇA


C. S. Lewis, célebre escritor do século XX, dedica um capítulo inteiro sobre a justiça no livro Reflexões sobre Salmos,  lançado inicialmente em 1958. No capítulo, intitulado "Julgamento" em Salmos (na edição da Thomas Nelson Brasil), ele descreve vários Salmos onde os salmistas se alegram na manifestação da justiça de Deus (67:4, 96:12,13, 9:8, 82:2,3). Lewis irá fazer um contraste sobre a visão cristã de justiça e a visão judaica de justiça. O judeu irá clamar por justiça, se entendendo como alguém que está no direito de clamar por uma causa justa, se julgando inocente perante o juiz. O cristão, por sua vez, olha para o justo juiz, entendendo sua condição de pecador e ofensor, buscando a sua misericórdia, através da justiça de Cristo, pois ele é o verdadeiro réu. Lewis diz que acha que "há boas razões para considerar a imagem cristã do julgamento de Deus muito profunda e muito mais segura para a nossa alma que a judaica. Mas isto não significa que a concepção judaica deva se simplesmente ser descartada." Muitas vezes, ignoramos ou não desejamos ver a justiça de Deus sendo manifestada, por termos o nosso olhar voltado somente para a sua misericórdia. Ou, num outro extremo, não desejamos que Deus demonstre misericórdia por julgarmos que o ofensor é menos merecedor da misericórdia de Deus que nós. É certo que, como crentes, não devemos ser apáticos diante da injustiça e que tenhamos prazer em ver a justiça de Deus manifestada. A justiça é um dos atributos de Deus e Deus é justo, justo juiz. Somente Ele é verdadeiramente justo. 

Wright, usando o evangelho de João como base, argumenta que "o evangelho de João descreve um Deus que se importa profundamente com a justiça. Este ponto é fundamental: embora nós, seres humano, tenhamos dentro de nós um eco forte desse desejo por justiça, é no próprio Deus que esse anseio é completo e aperfeiçoado." Nossa ansiedade por justiça só pode ser completa em Deus porque Ele é a fonte máxima de toda a justiça. A justiça divina é e deve ser motivo de nossa alegria. Jesus foi injustiçado, sofrendo no nosso lugar. Confiamos na justiça dele, como quem foi injustiçado, para que por sua justiça possamos ser declarados como justos diantes diante de Deus. Nossa culpa diante de Deus, expiada diante do sacrifício de Cristo, nos impede de agirmos de uma maneira que não devemos agir. Ela deve brotar em nós um desejo profundo e ardente por sermos executores da justiça divina, em todas as suas manifestações. Não somos levados a confiarmos em nossa própria justiça ou de desejarmos que a nossa justiça seja executada. O nosso desejo deve ser de louvor, quando Deus faz sua justiça presente e, nisto, pode se encontrar o justo juízo para condenação, no tempo designado por Deus, ao honesto trabalhador, que sempre tratou bem sua esposa e o justo juízo para salvação, do mais perverso estrupador, arrependido dos seus pecados e alcançado pela misericórdia divina, pois a justiça não se trata do que o homem faz, mas do que Deus faz para a Sua glória, ao enviar Jesus para que, pecadores que creiam nEle, tenham a vida eterna. É somente pela redenção em Cristo que o homem é verdadeiramente liberto do pecado e justificado. Somente aí que o ser humano começa a viver de maneira diferente, através da ação do Espírito Santo na vida dele. A justiça humana não é capaz de fazer aquilo que só pode ser operado por meio da justiça divina.

No tempo oportuno, Deus virá para julgar a humanidade. E, neste julgamento, haverá dois grupos de pessoas: as que creram em Cristo e as que recusaram a oferta de salvação. Ainda que haja, em nosso tempo presente, manifestações de justiça - e também de injustiça - elas não são definitivas. Superman e Batman continuarão prendendo bandidos. E eles serão soltos. Faremos leis e leis serão quebradas. Nenhum político ou sistema pode suprir a nossa necessidade por justiça, ainda que o façam, em partes. A nossa fome por justiça não será saciada nesta terra. Mas nos, que já experimentamos a justiça uma vez, não devemos ficar parados, enquanto aguardamos a justiça vindoura. Que a exemplo dos heróis, não ultrapassamos os limites que nos foram estabelecidos e entreguemos a Deus os nossos pleitos, crendo piamente que, na consumação de todas as coisas, o Filho, em que nós depositamos a nossa esperança e de quem nós cremos por justiça, será glorificado. A Deus, pertence a vingança (Dt 32.35).

Um abraço,
Dodô Ramos

 











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