CASTLEVANIA T03E09 - "A COLHEITA": QUANDO ESTAMOS VULNERÁVEIS

 


Castlevania é uma série de animação baseada no jogo japonês de 1989, Castlevania III: Dracula's Curse, da desenvolvedora de jogos Konami, disponível na Netflix. Eu joguei alguns jogos da série, sendo o primeiro o Castelvania Drácula X, do Super Nintendo, com o Ritcher Belmont como protagonista (protagonista da série Caslevania Nocturne, disponível também na Netflix). Mas, a despeito do que joguei, queria falar sobre esta série de animação. 

A série retrata Trevor Belmont, que defende o condado da Valáquia de Dracula e seu exército. Em resumo, quando sua esposa é queimada na fogueira depois de ser acusada de bruxaria pelo bispo da cidade, o vampiro conde Vlad Dracula Tepes declara que todo o povo da Valáquia pagará com suas vidas. Ele convoca um exército de monstros que invade o condado, fazendo com que as pessoas vivam vidas de medo e desconfiança. Para combater isso, o caçador de monstros Trevor Belmont pega em armas contra as forças de Dracula, auxiliado pela maga Sypha Belnades e pelo filho de Dracula, Alucard (o personagem da foto). A série possui quatro temporadas, porém eu gostaria de destacar o penúltimo episódio da terceira temporada e, desde episódio, dois núcleos: o núcleo da Lenore e do Hector e o núcleo do Alucard com os dois irmãos, que me chamou muito atenção quando assisti. 

A SEDUÇÃO DA VAMPIRA


Lenore é uma vampira, que possui outras três irmãs, também vampiras e que tem, por principal objetivo ajudar a sua irmã Carmilla e garantir que Carmilla, e as demais irmãs, controlem recursos e aliados necessários para expandir seu domínio. Como diplomata, seu objetivo é transformar inimigos em ferramentas úteis para a causa vampírica. Ela valoriza ordem e controle, acreditando que seu papel como negociadora é essencial para evitar conflitos internos e fortalecer o reinado das vampiras.

Hector, por sua vez, era um mestre forjador de Drácula (alguém que criava criaturas da noite, para servir como soldados/servos), se aliando a Drácula no seu objetivo de destruir a humanidade, por acreditar que a humanidade era cruel e do desejo de criar um mundo onde humanos não pudessem causar mais dor ou sofrimento. Sua visão idealista de um mundo pacífico, onde criaturas da noite e vampiros coexistiriam sem a violência, causa nele desilusão ao perceber que o objetivo de Drácula era apenas genocídio, sem qualquer intenção de criar o equilíbrio que Hector desejava. Manipulado por Carmilla, Hector trai Drácula após descobrir seus objetivos, porém ele é capturado pela própria Carmilla, que o humilha, acorrentando-o e o maltratando, desejando usá-lo como mestre de forja para o seu próprio exercito, ao fim da segunda temporada. A ingenuidade o levou a se tornar escravo, trazendo para si dor, sofrimento e angústia, além da perda de propósito dos seus próprios ideais.

Lenore, que era muito atraente fisicamente e com sua habilidade diplomática, tem uma abordagem diferente de Carmilla e das demais irmãs em relação a Hector. Desde o início de sua interação, Lenore emprega uma abordagem calculada, alternando entre bondade (como boas refeições, sapatos para proteger os pés, um tratamento diferente de Carmilla) e controle para confundir e conquistar sua confiança. Ela o faz se sentir valorizado, alguém que merece mais do que a dor e o desprezo que sofreu. Hector, extremamente fragilizado emocionalmente, vai lentamente sendo manipulado por Lenore e por suas palavras, principalmente acerca de proteção e de propósito e da necessidade de uma conexão, de um laço genuíno. Ele se sentiu valorizado.

No referido episódio, Lenore usa da sua proximidade emocional levando a um momento de intimidade sexual entre os dois. Nesse momento, completamente vulnerável e entregue aos seus prazeres, Hector se torna um escravo das irmãs, pois Lenore havia colocado em seu dedo um anel mágico, que vincula Hector a Lenore, forçando sua lealdade absoluta a ela e, por extensão, à causa de Carmilla. Isso significa que Carmilla agora pode usar Hector para criar um exército infinito de criaturas da noite. Hector percebe que foi enganado, mas está impotente para resistir. Sua expressão de derrota é marcante, mostrando que ele perdeu mais do que sua liberdade; ele também perdeu a esperança.

A AMARGURA DO VAMPIRO


Alucard é um dampiro (meio humano, meio vampiro) que havia derrotado o seu pai, Drácula, que desejava matar a humanidade em virtude da morte da sua esposa, a mãe de Alucard. Ele o faz, junto de Trevor e Sypha, com quem acaba desenvolvendo uma forte amizade ao longo do caminho. Ao fim da segunda temporada, após matar o seu próprio pai e acreditar na humanidade, assim como sua pãe fazia, ele se despede de Sypha e Trevor, que partem para explorar o mundo, enquanto ele fica sozinho, no castelo de seu pai, a fim de proteger o legado de seu pai, incluindo o conhecimento e a tecnologia armazenados no castelo, bem como a biblioteca de Belmont, que agora está conectada ao castelo por magia.

Após derrotar o seu pai, Alucard perde complemente o seu propósito de vida, pois o propósito da vida dele era parar o seu pai a todo custo. Sozinho em seu castelo, ele fica completamente isolado, melancólico e se sentindo solitário, chegando a colocar bonecos de Trevor e Sypha na mesa de jantar para simular companhia, revelando o impacto devastador de sua solidão. Ele se torna mais introspectivo, perdendo qualquer senso de propósito da sua existência após a morte do seu pai.

Porém, isso muda quando dois irmãos, Taka e Sumi, caçadores de vampiros vindo do Japão, vão até ele. Eles pedem ajuda, querendo aprender a como destruir vampiros que estavam controlando o seu povo. Alucard, inicialmente desconfiado, acaba por acolhê-los e a treiná-los. A presença dos dois dá a Alurcard um vislumbre de esperança e um novo senso de propósito. Alucard trata eles com bondade, compartilhando dos segredos do castelo, acreditando que está criando com eles um elo, como tinha com Trevor e Sypha, alimentando sua esperança de não estar mais sozinho e vendo-os como uma espécie de "família". Porém, os irmãos acabam por desconfiar de Alucard, por acharem que ele estava manipulando-os.

Numa noite, eles usam da sua proximidade com Alucard para sugerir um momento de intimidade sexual compartilhada. Alucard, carente de afeto e acreditando no vínculo formado, cede a intenção, deixando suas defesas baixas e ficando completamente vulneravel. Os irmãos, durante o momento de intimidade, prendem Alucard com fios mágicos e o atacam, acusando-o de manter segredos e controlar o castelo para seus próprios interesses, algo que os irmãos queriam fazer, ao assassinar Alucard. No entanto, Alucard reage rapidamente e usa seus poderes para matá-los antes que consigam concluir o plano. Isso destruiu as esperanças de Alucard de construir novas relações, mas também o empurra para uma postura mais desconfiada e amargurada. Alucard está profundamente marcado por sua experiência de traição. Sua tentativa de criar novas conexões humanas resulta em dor e solidão ainda mais profundas, reforçando o isolamento que ele tentou superar.

SENTIMENTOS SEMELHANTES


Há algumas semelhanças marcantes entre Hector e Alucard. Ambos compartilham uma solidão profunda, vulnerabilidade emocional, dificuldade e ao mesmo tempo propensão, necessidade de confiar e, acima de tudo, uma falta de propósito. Em meio às dificuldades extremas, surgem pessoas que aparentam boa intenção, oferecendo exatamente aquilo de que eles mais precisam. Completamente vulneráveis, sem esperança e solitários, ambos não apenas confiam nessas figuras, mas também depositam nelas sua última esperança, acreditando que seriam a solução definitiva para suas dores. Da solidão, veio o acolhimento. Da tristeza, a felicidade. Da carência, a satisfação. Da falta de pertencimento, a um propósito. O ápice, para ambos, foi a intimidade sexual, o momento máximo de confiança e entrega. Todas as defesas estavam baixas, e, naquele instante, eles buscaram preencher suas necessidades mais profundas. Mas, nesse momento de maior vulnerabilidade, tudo aquilo em que acreditavam desmoronou. Traídos quando estavam mais entregues, seus corações se fecharam ainda mais, levando-os ao isolamento emocional. Do acolhimento, restou a solidão. Da felicidade, a tristeza. Da satisfação, a carência. E do propósito, apenas a desesperança completa. Ao se entregarem ao que parecia ser a promessa de alegria, encontraram apenas uma profunda e irreparável desilusão, se fechando numa armadura quase impenetrável. 

O que vemos nesses dois homens é o mesmo que vemos em todas as pessoas ao nosso redor, em maior ou menor escala. Nós temos uma necessidade de sermos aceitos, ainda que possamos usar da rejeição como forma de mascararmos isso; temos uma necessidade de compartilharmos dos nossos medos e angústias, ainda que usemos da nossa reclusão para mascararmos isso; temos uma necessidade de confiarmos em alguém, ainda que usemos de desconfiança para mascararmos isso; temos a necessidade de não estarmos sozinhos, ainda que usemos da solidão para mascararmos isso. Temos necessidades, conscientes ou não, que nos fazem buscar desesperadamente por algum sentido no que fazemos, em quem somos ou no que desejamos e somos mestres em esconder os nossos sentimentos com a justificativa de não nos machucarmos. Alguns conseguem lidar com esse conflito de uma maneira a não deixar isso os consumir. Outros, numa tentativa de evitar o sofrimento, vão se entregar desesperadamente a todas as formas possíveis de encontrar satisfação, principalmente no sexo e em coisas que o façam "sair" da realidade, trazendo para si cada vez mais desgosto e desprazer, buscando novamente suprir isso através de mais coisas de gosto e prazer que trarão desgosto e desprazer; outros ainda se fecharão profundamente, evitando o máximo de contato possível com qualquer coisa que pode lhes trazer alegria ou tristeza, vivendo num constante estado de indiferença em relação a tudo, também como forma de evitar o sofrimento. 

Solitários, vamos buscar uma saída para a nossa solidão em qualquer coisa que não nos faça sentir só. Emocionalmente fracos, vamos buscar por, ou vir a aceitar, qualquer resposta que nos faça sentir bem, confiando em qualquer coisa que nos dê um pouco de sentido, sejam pessoas, obejtos, sensações, sentimentos. Tudo isso faz parte do homem natural e da sua perda completa de propósito. Porém, se o propósito foi perdido, é porque antes existia um. 

O PRINCÍPIO DA VULNERABILIDADE


O homem foi criado para um fim, para um propósito. Este propósito reside em glorificar a Deus e se alegrar nele (CMW). A glorificação a Deus está atrelada a nossa alegria, a nossa suficência, a nossa satisfação nele. Há inúmeros textos nas escrituras que irão apontar que, se estivermos satisfeitos em Deus, seremos plenamente e verdadeiramente satisfeitos, como Salmo 37:4-5, por exemplo. Toda a nossa insatisfação se dá por conta do nosso pecado, que nos afasta completamente de Deus (Rm 8). Não fomos criados para tal, porém, por causa do nosso pecado ali em Adão, todos nós sofremos os efeitos do pecado. Fomos criados para viver num relacionamento pleno, amoroso e satisfatório em Deus e, em virtude do pecado ter tirado de nós a comunhão com o Criador, nós vivemos num constante estado de perda. Perdemos a paz, a segurança, o conforto, a certeza que só poderíamos ter em Deus. Só Adão e Eva puderam experimentar isto e por pouco período de tempo. Porém, por muito amar sua criatura, Deus enviou seu Filho para que esta comunhão pudesse ser estabelecida novamente, por meio da Sua morte e da Sua ressusrreição. Aquele que crê (obediência) em Cristo como Filho de Deus, passa da morte para a vida. Há reconciliação (2 Co 5) e a possibilidade do homem viver plenamente satisfeito por meio de Cristo (Jo 10). Isto já acontece agora, mas será de vez completo quando Cristo retornar (1 Co 15).

Quando Cristo morre na cruz, todos os nossos pecados foram crucificados com Ele, incluindo os nossos sentimentos ruins que demonstram que não confiamos nele como deveríamos. Isso deveria trazer para nós alegria e a certeza de que, se confessarmos os nossos pecados, seremos perdoados (1 Jo 1). Não devemos nutrir em nossos corações sentimentos que nos afastam dele (Ef 4). A forma de fazermos isso é levarmos a Ele, todos os sentimentos (1 Pe 5; Fp 4) e entendermos que tudo o que Ele já fez, é suficiente. Podemos confiar plenamente em Deus porque Ele é verdadeiro, confiável e fiel. A confiabilidade faz parte da sua natureza, porque Ele não pode ser infiel (2 Tm 2); Ele nos aceitou, então não precisamos mais nos sentir rejeitados (Rm 15); Ele nos acolheu, então não precisamos mais nos sentir (Mt 28); Ele nos dá a verdadeira alegria, que nada no mundo pode nos dar (Jo 15); Ele nos dá paz, como nada no mundo pode dar (João 14). Cristo é suficiente (Cl 3) e quando vivemos para Ele, podemos usufruir, de fato, viver em plenitude de alegria, por estarmos diante do Senhor (Sl 16). Nossas expectativas nos traem. Deus, não.

Enquanto não colocarmos a nossa esperança em Cristo, nada disso pode acontecer. Fato é que não podemos colocar nossa esperança em nada que não seja o Senhor. A nossa confiança - ou seja o que nos faz movermos, existirmos e que dá sentido a nossa vida - precisa estar nEle e Ele precisa ser isso. Isso é benção em nossa vida (Jr 17). Caso contrário, sempre nos decepcionaremos, porque não fomos criados para colocar a nossa esperança, a nossa fé em nós mesmos ou em qualquer coisa dessa terra. Sucesso, família, emprego, dinheiro, trabalho, sexo. Nada pode nos deixar plenamente satisfeitos e, se vivermos com os nossos olhos voltados somente para isso, não teremos plena e verdadeira. O pecado não nos deixa enxergar que precisamos do Senhor e que somente nEle podemos encontrar descanso verdadeiro para a nossa alma (Hb 4). Ele, que é senhor de todo homem sem Cristo, manipula,  aprisiona, leva-nos a nos afundarmos em nossa própria confiança, usando de tudo ao nosso redor para que mantenhamos os nossos olhos em nós mesmos, nossos problemas, dificuldades, e até mesmos nossas alegrias, e não olhemos para Deus. Ele nos dá uma falsa esperança, algo ilusório, baseado em nossos anseios e, depois, nos trai, nos deixando pior do que quando estavamos antes. Enquanto confiarmos em nossas próprias forças e seguirmos o nosso próprio caminho, sempre estaremos andando a deriva por caminhos que parecem bons, mas que o final é a morte (Pv 14), porque só Jesus é o caminho, a verdade e vida (Jo 14). 

Quando estamos profundamente machuados, como estes dois estavam, sempre estaremos desconfiados, com medo e certos de que tudo ao nosso redor pode nos ferir, as vezes nos fechando ou nos entregando completamente a qualquer interação que aparente uma esperança. Porém, somos chamados a entender que, mesmo quando nos ferimos, isto é para Cristo seja glorificado em nós e através de nós. Deus nos deu amigos, família, trabalho, igreja, dinheiro, conquistas, sexo, para que Ele fosse glorificado por meio de tudo isso e para que as nossas alegrias fossem culminadas no Senhor e as nossas tristezas levadas a Ele. Quando estamos alegres, glorificamos a Deus agradecendo a Ele pelo o bem que nos deu. Quando estamos tristes, glorificamos a Deus ao levarmos a Ele nossa suplica em oração e quando buscarmos um amigo para orar conosco. Jamais podemos esquecer do quanto a igreja, do corpo de Cristo, é fundamental para a restauração e para a caminhada cristã (Gl 6). Enquanto a obra perfeita de Deus não for nossa satisfação e alegria, nada mais será. Sempre buscaremos alguma forma de nos satisfazermos em coisas que, sem Cristo, só trarão desgosto, apesar de uma aparente alegria, porque tudo é imperfeito. Nossos empregos falham, nossa família falha, a satisfação que o sexo, as conquistas, as vitórias podem dar. Tudo isto é vão, se não for levado a Cristo. Fomos criados para um propósito e viver longe dele é usar de inúmeras e vãs filosofias para tentar fazer algo que só Deus pode fazer. Que possamos, diante da solidão, da vulnerabilidade emocional, da falta de propósito olhar para Cristo, com o olhar que a escritura exige (Hb 12), a fim de que compreendamos como a trabalho consumado do nosso Senhor é suficiente para nós.

Algumas aplicações para a sua reflexão:

  • Tenha a confiança em Deus como fundamento. Constantemente examine onde está colocando sua confiança. Se for em qualquer coisa fora de Deus, realinhe o seu coração.
  • Todos estamos sujeitos a nos sentirmos vulneráveis,  sozinhos, fracos. Porém, ao invés vez de se fechar ou buscar alívio em fontes inadequadas, abra o seu coração ao Senhor e converse à igreja local, que é chamada para carregar as cargas uns dos outros.
  • Sua identidade e propósito devem estar firmados na redenção de Cristo. Isso dá resiliência emocional e espiritual, mesmo diante de traições e perdas.

Um abraço,
Dodô Ramos

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

HINATA E A ESPERA DO NOIVO PARA O CASAMENTO

SAGA DE GÊMEOS E QUEM VERDADEIRAMENTE SOMOS

NARUTO, NAGATO E A RESPOSTA PARA A PAZ